Páginas

sábado, 18 de fevereiro de 2012

A Sombra Do Corvo

 

 - Observa – disse-me a ave negra trepada sobre o umbral da porta do meu quarto –
vês que o silêncio é interrompido por minha voz. Ouve-me agora, 
mas quando me calo, podes tu ouvir a voz do silêncio?
 - Pode-se ouvir o que não é dito? – respondi eu incrédula com a realidade da cena. 
-Não o que não é dito, mas o que poderia ser dito, ou o que poderia ser ouvido. 
- Vens tu a esta hora da madrugada fria me falar do silêncio das palavras, 
ou queres lançar enigmas sobre o vazio das idéias?

- Observa! Presta atenção no que acontece aqui. 
Quando me calo, o ar não fica mais parado. Atenta a isso! 
Mas antes de me ouvir, tudo estava paralisado. 
Nenhum movimento de idéias pairava no ar ocioso deste aposento quieto, 
mas quando te interpelei, quebrei a solidão deste recinto, e tu, com surpresa, atentaste para mim. 
Depois me calei. Todavia, o ar deste ambiente continuou a 
ecoar minhas palavras sobre tua cabeça, com todas as conjecturas que 
pularam da tua mente em virtude das minhas palavras, e mesmo que 
eu me vá daqui e não mais retorne, neste recinto ficará eternamente meu fantasma. 

Tua mente buscará a mim todas as vezes na solidão da noite, 
quando deitares na tua cama, e como não mais me terás outra vez consigo, 
tu mesmo me criarás.- Vai-te daqui, ave do mal. Filósofo ou demônio! 
Some-te daqui e leva contigo tua sombra funesta até as profundezas do inferno, 
de onde deves ter fugido, e lá te oclusas com o teu senhor, e deixa em paz a minha alma. 
E a ave negra erguendo suas imensas asas, lançou-me um olhar ferrenho e demoníaco.

 E antes de se lançar nas profundezas da escuridão da noite, 
através da janela aberta, me falou: - Sim, é mister que eu me vá. Todavia, 
minha sombra ficará. Ela estará sempre aqui, neste umbral a te observar. 
E tua própria consciência vestirá minhas penas negras, e delas e de minhas palavras, 
tua alma não mais se libertará. Nunca mais.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe seu comentário sobre meus textos aqui...